road-to-nowhere

Passou exactamente um ano. Certinho. Nem mais um dia, nem menos um dia. 1ª lição: isto pode mesmo demorar muito tempo. Costuma dizer-se que as melhores lições se tiram dos piores momentos, e durante esse percurso que mais pareceu uma dívida qualquer com a máfia do inferno, existia a tal luz-ao-fundo-do-túnel que espera por nós e que só vemos quando resolvemos tudo o que há para resolver (parece aquela série de fantasmas da Fox_life… engraçado, na altura isto não faz sentido nenhum, mas é mesmo isso – nada acontece por acaso – 2ª lição: dizer é tornar real, é fazer existir). Não sabemos quantos mais sacrifícios serão necessários, ou ainda quantas mais tentativas para mudar uma situação sob a qual não temos controle mas, efectivamente, o mundo gira e nada fica muito tempo no mesmo lugar. As pessoas fazem questão de nos lembrar isso muitas vezes, falam-nos das guerras, das catástrofes naturais, dos países onde se morre de fome, recorrendo às mais típicas expressões “ não há mal que sempre dure”, “pior seria ficar sem uma perna”, “ah, isso são umas feriazitas prolongadas!”, a minha favorita, dá vontade de correr para bem longe e gritar até ficar sem voz. Ou bater em alguém, porque é um caso extremo. Não é por mal, mas os nossos níveis de tolerância e racionalidade estão constantemente à prova. 3ª lição: nada nunca é assim tão extremo e definitivo. Mas ao menos, estas são as pessoas que gostam de nós. Que se preocupam, que partilham a nossa impotência ao mesmo tempo que tiram um pouquinho das suas vidas para nos alegrar. Algumas, para liderar verdadeiras intervenções. 4ª lição: filtrar. Afinal, há aqueles para quem passámos a ser redundantes.

Só alguém que nunca ‘cheirou’ a desemprego pode pensar que a falta de rotina, toda a disponibilidade quando ninguém a tem e a ausência de responsabilidades de maior, pode significar uma oportunidade para as eternas férias num paraíso qualquer escondido do tempo. O ‘cheiro’ a desempregado de que vos é um perfume novo, que estamos a experimentar pela primeira vez. Temos tendência a exagerar na dose. É desesperado, discriminatório e quase que atrai as moscas. Aquelas que gostam mesmo (perdoem-me a expressão), de ‘chafurdar na merda’. Afinal, vivemos num país que não distingue um desempregado que tomou-uma-opção-por-não-se-sentir-feliz-e-realizado-profissionalmente, e o outro que pica o ponto no Instituto de Desemprego para receber o seu ao fim do mês, porque afinal, vivemos num país de direitos adquiridos. Com um passado tão rico em descobertas, representamos a mediocridade de um Portugal mais pequeno que a sua geografia, que esqueceu que para conquistar é preciso esforço, luta, trabalho árduo. Sobretudo, no mercado de trabalho. 5ª lição: o fim da idade da inocência. A selva existe mesmo. Tudo se consegue por puro golpe-de-sorte, quem sabe, uma cunha do filho-do-pai-do-tio. Confesso, se voltasse atrás – e quando revisito o passado nunca é para me arrepender – não faria da mesma forma. 6ª lição: não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Entramos num caminho desconhecido que nos faz perder o norte, a capacidade de confiar em tudo e em todos e sobretudo, em nós próprios. 7ª lição: respirar fundo e pela boca, porque ao invés disso, corremos incessantemente atrás de qualquer coisa que nos devolva alguma dignidade.

Cansados de ouvir sempre os mesmos argumentos já gastos e pouco criativos, requisitos como ‘menos de 30 anos’, ‘mais de dois anos de experiência no sector de actividade’, ‘ demasiadas qualificações’, ‘cara demais’; ‘nunca trabalhou do lado da agência’; sabe-fazer-um-plano-de-marketing?!’- estiveram sempre no topo da lista. Requisitos pré-entrevista, claro está – a primeira barreira. Na maioria das vezes, a última. Quando ultrapassada, o formulário usado é o conhecido modelo ‘chapa-7’, com uma série de parâmetros pré-definidos para qualquer pessoa que esteja a candidatar-se, independentemente da função ou empresa ou sector ou ramo ou classe ou raça ou credo. Seja júnior, acabadinha-de-sair-da-faculdade, sénior (velha ou nova), morena ou loira, simpática ou polivalente. Ou ainda com 13 anos de experiencia. E um percurso sólido numa área de especialização e num sector em particular. E mais ainda uma experiência internacional. 8ª lição: um bom curriculum não é um passaporte para o sucesso. Tudo o que construímos com lágrimas e suor, aprendendo com os melhores e os piores, sendo o nosso melhor e o nosso pior, passa a ser totalmente irrelevante. O cheiro intensifica-se. Não podemos almejar a muito. Nem sequer somos aceites para servir às mesas num restaurante da moda em Lisboa. 9ª lição: ninguém acredita que alguém numa situação destas, queira realmente trabalhar. Somos desesperados, alguém que não consegue ver o horizonte. 10ª lição: afinal, somos todos cínicos. As estatísticas: 24 entrevistas. Mais de 30 candidaturas espontâneas. 55 anúncios respondidos. 1 processo de headhunter (não confundir com empresas de recrutamento, que estão longe de entender que a sua missão é potenciar os skills dos candidatos, sobretudo daqueles que querem trabalhar, equilibrando a lei da oferta e da procura, mas não, essas preferem ir buscar alguém que já esteja a trabalhar, e no mesmo sector há pelo menos, 20 anos). Índice de resposta: 5% em 100%. O Top+: ‘sabe-qual-é-a-diferença-entre-mktgB2B-e-mktgB2C?’; ‘propomos um projecto de seis meses, mas como não sabemos se vai ficar seis meses, pagamos 500 no primeiro, 600 no segundo…’; ‘afinal o cliente quer um especialista-em-marketing-online (lá estão os tais 20 anos de experiência do gajo que hão-de ir buscar à concorrência com um pacote salarial exorbitante) ‘; ‘hum… CA… o que é a CA?! (numa entrevista para outra grande empresa do sector); ‘bom, então para início de conversa: está desempregada, não é?!’ (brilhante início de conversa…); ‘diz que aprendeu muito ao longo da sua carreira… então diga-me lá o que é que aprendeu afinal?’; ‘para que possamos dar andamento ao seu processo, terá de dizer-nos qual foi a sua média de final de curso’; ‘você até é do sector, mas o nosso cliente quer uma pessoa que saiba tudo sobre este negócio, e pelo facto de nunca ter trabalhado directamente com uma agência de meios, terei de excluí-la imediatamente deste processo (este foi o mesmo que perguntou se eu sabia fazer um plano de marketing’. a cereja no topo do bolo: ‘tenho aqui um cargo de gestão importantíssimo, para gerir uma equipa – mas que tipo de função se trata? – é um cargo de gestão importantíssimo, mesmo muito importante! Almoce comigo e vamos ver o que podemos fazer por si’. Podia estar aqui horas a falar do carrossel-do-desemprego, mas acho que já cheguei onde queria. Um desempregado não é um coitadinho. 11ª lição: nada é garantido. Nada é assim tão importante. Relativisar tudo. E em muitos mais anos que passem, concerteza irei acrescentar mais algumas lições aprendidas à minha lista. Algumas, com menos agrado do que outras, mas todas com uma sensação de vitória. De dever cumprido. Como um resistente numa guerra para a qual nunca se candidatou.

(artigo publicado na MagaZon)

Comentar

2 Comments

Comments are closed.