PukAnita

último dia de antibiótico depois de dez dias a abrir-lhe a boca contra-vontade, meter comprimidos e apertar-lhe o focinho durante longos segundos até escorregarem pela garganta fininha. dez dias a levantar-lhe os beiços e encostar a seringa do analgésico para finalmente lhe passar a mão-pelo-pêlo, subornando-a com uma guloseima e palavrinhas bonitas numa tentativa de aliviar a culpa.

nos primeiros dois ainda consegui enganá-la com paté suculento mas ao terceiro castigou-me virando costas como quem diz ‘tenho a certeza que aqueles gatinhos fofinhos da lata não comem disto todos os dias’. não sei quem se sentiu pior estes intermináveis dez dias, se eu se ela. pela tortura, pela dissimulação, pela infecção, pela aflição.

é nestas alturas que percebo aquela conversa dos donos se parecerem com os animais: tenho uma gata independente mas que precisa tanto que cuidem dela. na saúde e na doença. na brincadeira e para cortar as unhas. para escovar-lhe o pêlo ou pegar-lhe quando chego a casa e ronronarmos uma à outra “bem-vinda! como foi o teu dia?”. podem crer que os nossos patudos falam e percebe-se muito bem o que dizem.

eu também fico doente com ela. nestes momentos não me lembro da borda dos cortinados onde se enrola, do tapete onde crava as unhas para fazer alongamentos, das sessões de parkour em cima da minha cabeça passando pelo papel de parede, dos elásticos do cabelo perdidos se tenho o azar de me esquecer de fechar a porta da casa de banho, da gaveta do guarda jóias que ela consegue abrir e espalhar pelo quarto, do cesto da roupa para passar feito cama, do buraco na palhinha da japonesa da janela da cozinha, da terra dos vasos no chão da sala, das folhas das plantas ratadas ou do estrondo do galo de Barcelos vintage a cair ao chão e a partir-se.

só consigo pensar na língua-picante que me lambe a ponta do nariz, o focinho a roçar nos cabelos lavados, a chaleira sempre ligada, as festas macias, em como se enrosca em mim no sofá ou se molda ao meu corpo quando dormimos, o olhar ‘hã? o quê? eu?’ que desmonta o meu ar educador em três tempos, quando salta para dentro da banheira antes mesmo de eu sair para beber das pocinhas de água, quando brinca com os fios das minhas calças de pijama ou se deita em cima das minhas pernas de barriga para cima, dando-me o que de mais precioso têm os gatos, a sua confiança.

conheci-a numa loja onde também salvam animais abandonados, tinha sido encontrada num saco de plástico dentro de um contentor juntamente com outro gatinho. eu ia “pensar” porque se tratava de uma adopção responsável e eu nunca tinha sido responsável por nada que não eu mesma mas ela não me deu hipótese, resguardando-se minúscula no meu pescoço, murmurando: “és minha para sempre”. e há quatro anos que somos companheiras e que nos salvamos uma à outra todos dos dias.

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