o natal é quando (um)a Anita quiser

o natal é tradição mas é também fruto das muitas variações ao longo da nossa vida. o contexto, as pessoas que nos rodeiam, as ausências. uma coisa é certa: quando somos crianças o natal tem uma magia especial e irrepetível, a mais aguardada época de todas.

a noite de 24 sempre foi a mais importante lá em casa: a minha Mãe cedo se ocupava da cozinha, atarefada a criar o bacalhau especial que só comemos pela ocasião. fritavam-se fatias douradas e a minha Avó mandava filhoses e esquecidos, típicos da Beira.

o meu irmão e eu tínhamos direito a uma sobremesa à escolha (ainda hoje é assim); a torta de laranja era quase sempre a minha preferida. o meu irmão debatia-se entre a aletria e o arroz doce. nunca faltava a tijelada, um doce conventual feito com muito açúcar que a minha Mãe desfalca pela metade (como, aliás, à maioria dos doces).

enquanto reinava o frenesim de cheiros intensos e o ruído das loiças, punhamos o gira-discos a tocar e sentávamo-nos à roda da árvore iluminada com as luzes a piscar. o single “A todos um bom natal” do Coro de Santo Amaro de Oeiras rodava no prato em repeat até que alguém viesse trocá-lo pelo LP do Nat King Cole (a capa era azul e eu adorava o sorriso aberto e a voz doce do pai natal Nat).

a tarefa de por e decorar a mesa cabia-me sempre. a toalha bordada e o serviço especial de jantar, os copos de cristal e os guardanapos vermelhos com o azevinho verde. o centro de mesa tinha velas e tudo permanecia solene e intacto até à hora do jantar da consoada. depois de ajudar a trazer os doces para a consola da sala ia vestir qualquer coisa um bocadinho mais especial. e começava o natal tão antecipado.

a troca de presentes à meia-noite cumpria-se religiosamente e levaríamos horas a abri-los; alguém distribuía os pacotes e sacos coloridos um a um e esperávamos sempre que o outro abrisse o seu presente antes de fazer nova entrega, vibrando e celebrando entre todos.

este é um dos natais que me lembro mas houve outros. uns na terra da avó, outros em casa da madrinha, outros com tios e primos, outros no calor do verão do lado de lá do globo. e as tradições continuam, ajustando-se às nossas idades menos ingénuas, acolhendo diferentes pessoas que estão na nossa vida ou só de passagem.

hoje o natal é a antítese do tempo: corremos para tudo e contra tudo para fazer tudo na época mais atarefada por excelência. enviamos e recebemos mais mensagens e convites para tantos outros jantares de natal que durante 364 dias não tiveram espaço na agenda.

recebemos menos (não devíamos) e damos mais (devíamos). é aquele dia do ano em que (re)lembramos que o tempo é o Presente que temos para oferecer. e é mesmo o melhor presente de todos.

isto não é um manifesto anti-natal ou sequer uma declaração aos males sociais de que o natal é vítima (como nós). mas a realidade que tantas vezes nos distancia (ou define) é a mesma que nos atropela no centro comercial quando já estamos sem ideias para os presentes (obrigatórios).

natal que é natal celebra-se onde e como e com quem queremos. quando se trocam e se fazem novas memórias. quando os telefonemas e as visitas e os facetime não têm data marcada. quando oferecemos qualquer coisa porque nos fez lembrar essa pessoa. quando respiramos sem pedir licença e podemos passar a manhã do dia seguinte sem tirar o pijama.

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