
planos para o feriado vermelho: descer a avenida com um cravo na mão e força na voz. dar um passeio à beira rio com o meu sobrinho. fazer o supermercado da semana. simples. realidade do feriado vermelho: empenada. como as portas que não fecham, os motores que gripam, o pé coxo da mesa.
o meu lado revolucionário (literalmente) entrou em falência nos últimos seis meses. já se sabe que o corpo-é-que-paga e o meu tem pago às prestações. começou tudo há dois anos com um pé mal colocado e zás!, andei o ano seguinte a ignorar um moínha irritante porque me convenço sempre que se ignorar a dor ela vai acabar por desistir de mim (porque é que não consigo fazer isso com as outras dores?). depois começou tudo a subir por aí acima reivindicativamente, apossando-me como se o corpo já não fosse meu e zás!, vi-me assim impedida de exercer a mais básica liberdade: mover-me.
dizem que para saber mesmo-mesmo o que é ter liberdade é preciso saber o que é não ter e são estas pequenas-grandes lições que despertam a consciência para os perigos do que damos por direito-adquirido. não é, nada é. imaginem vermo-nos privados de sono. de ir-à-casinha. de beber água. de não poder entrar numa porta qualquer porque há uma especial para ti e para os iguais a ti e não é por seres extraordinária e única. de te obrigarem a ter as pernas e os braços e a cabeça tapados. ou não poderes beijar alguém na rua. ou não poderes ler o que queres ou pensar o que queres.
já dizem os Natiruts que a liberdade é p’ra dentro da cabeça e eu digo já que estou de acordo: a liberdade é o lugar das ideias. de todas: das próprias, das que gostamos mais e menos, com as quais concordamos e discordamos, as que aprendemos a respeitar, as que aceitamos, as que rejeitamos, as que se transformam, as que se mudam da nossa cabeça e não voltam mais. e depois digerir, reflectir, filtrar, escolher, decidir para, por fim, nos poder sair tudo pela boca. ou não, cada um é livre para fazer o que quiser com as suas ideias, vivá-liberdade.
claro que isto implica correr riscos – nem sempre o que nos sai pela boca sai de-agrado ou com boa-intenção ou sem escarafunchar-bem o dedo na ferida e às vezes as feridas dos outros não aguentam a nossa liberdade e vice-versa. é uma merda. mas é este jogo de cintura que torna a experiência da vida valiosa e única e com aquela sensação-de-absorção-mas-ao-contrário: uma constante e incrível conquista-que-vale-a-pena.
a liberdade de poder sorver tudo, ter horizontes. de poder Ser. o que somos, ainda que tantas vezes com uma data de filtros auto-socialmente-impostos. e Ser-à-séria? como quando estamos com os amigos-de-verdade e a família ou quando ninguém nos está a ver e podemos ser tudo o que sempre devíamos ter sido.
liberdade foi ter podido fazer a escola toda, ter podido ter uma comida preferida, ter podido escolher o que queria fazer da vida mesmo se não sabia nada da vida para escolher. liberdade é poder sair com quem e para onde quero e estar num lugar tão improvável quanto a liberdade que sempre tive para categorizá-lo dessa forma: e poder libertar-me de ideias pré-concebidas e convicções obsoletas e abraçar o mundo todo.
hoje logo de manhã ouvi da boca de um estranho “bom dia menina linda, que sejas muito feliz” e senti que era livre para lhe sorrir de volta e passar o dia a cantarolar:
Você pode entender
Desigualdades e a luta
Afim de encontrar
A liberdade e a paz
Que a alma precisa ter
Liberdade p’ra dentro da cabeçaaaaaa




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