Anita, o que dizem os teus olhos?


tenho passado os dias a ouvir trocadilhos sobre a tempestade Ana mas eu juro que não tenho nada a ver com isso – às vezes sou destrutiva mas é só para mim mesma, isso conta? se as mulheres são ameaçadoras não sei mas Nietzsche diz que somos só o segundo erro de Deus, pelo que a responsabilidade não pode estar toda do nosso lado.

tempestuosa não é uma das minhas palavras mas calharam-me algumas na mesma linha: rebelde, intempestiva, intensa, apaixonada. gosto de todas e revejo-me em todas, positiva e negativamente, não me esquivo ao lado lunar das entrelinhas. são boas palavras sendo que a sua propriedade é de quem as diz porque quem as recebe não tem escolha. quem as diz deve saber que são setas-atiradas ou então é só (má) literatura. quem as recebe pode ou não ser digno delas, as palavras não têm demérito, só quem as desmereça.

num minuto de filme cabem tantas outras que poderiam sobreviver por si só, tal a sua força. ‘és transparente como este vidro’, diz alguém que sabe que mesmo calada tenho legendas e que falo pelos olhos e pelas sobrancelhas que arqueiam e que fica tudo registado para a posteridade nos riscos da cara a que mais tarde vou agradecer por me pouparem em explicações. transparente é uma palavra que tem tudo para ser boa mas pode tornar-se igualmente incómoda, não dá jeito nenhum sair-nos uma cara-d’enjoada ou um tom de voz de ovelha-psicadélica-da-família quando não estamos a gostar da conversa. às vezes é uma palavra comprometida, em momentos de sentir ferver as bochechas por não ser capaz de disfarçar uma emoção que vulnerabiliza.

ao longo dos anos aprende-se que uma qualidade nem sempre nos é favorável e que há uma certa bipolaridade interpretativa em palavras que apesar de não estarem para rodeios muitas vezes se veem forçadas ao sorriso-amarelo ou à resposta curta-e-grossa ou à elevação do silêncio que compreende que a urgência em dizer tudo nada tem a ver com o outro e tão somente com teimosia do que não queremos aceitar. se lhe juntarmos outras palavras como aquelas que dão nome aos furacões a transparência pode não ser mais que uma reputação inflamatória entre leviana-descontrolada ou parvinha-sensível que não tem mais nada que fazer senão sentir-(se).

no extremo somos alguém cujos sentimentos não estão no lugar certo mesmo se ‘despimos-a-camisa’ para dar ao outro e atenção que isto está longe de significar dizer tudo o que se pensa ou faz, pelo contrário, há uma enorme generosidade na afirmação plena, sem esquinas escusas onde possam infiltrar-se as incertezas e abrigar-se mal-entendidos. não há hipótese nenhuma de ser mais ou menos transparente, ou-se-é ou não-se-é, como o algodão que não engana.

num dos espectáculos que vi recentemente dois actores encontram-se num desses momentos críticos entre fazer o que está certo e fazer o que é esperado por temer as consequências. o mais sensível desfaz-se numa crise de consciência tremenda, penetrando numa dor impensável à sobrevivência num mundo cuja beleza acabou de assassinar, mesmo quando a recompensa se traduz num maravilhoso harém-de-mulheres-nuas. o outro, pragmático e julgando estar em controlo dos efeitos nefastos do seu acto moralmente condenável, conforta o amigo dizendo-lhe que o cumprimento do dever é a única razão pela qual podem então desfrutar desse sonho tão desejado, condenando-se à ilusão que o aprisionará para sempre num labirinto de recordações dolorosas e marcas intemporais, perdendo o que de mais precioso para si existe: o outro. ai e o harém, já ali tão perto…

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