
vai para fora-cá-dentro e depois podes dizer que não há riqueza maior que viajar. hoje é muito comum dizer-se que nada se compara a sair-mundo-fora e não há dúvida que sim mas é só porque ainda não percebemos que são as viagens que nos-fazem e não-nós-as-viagens; é a partir desse momento que começa a dar-se a transformação, o verdadeiro paradoxo temporal: a par com o tempo físico em que estamos a viver estas experiências imersivas elas prolongam-se paralela e infinitamente na nossa forma de estar, pensar, de nos relacionarmos e com a nossa vida do dia-a-dia.
foi assim que fui parar ao Peru e à Bolívia há dois anos e agora à Índia, numa viagem de passos que venho dando para abandonar planos que nunca passavam disso mesmo, indisponibilidades de difícil gestão e a possibilidade de viajar sozinha. se o Peru foi fruto de um intenso desejo do meu imaginário infantil e a Bolívia uma surpreendente descoberta inimaginável, a Índia seria aquele país que cumpriria certamente todos os clichés com que nos confrontamos no nosso mundo(inho) ocidental: a sujidade, a densidade, a espiritualidade.
tudo embrulhado num belo trailler-de-fusão com o título “comer-orar-e-amar no exótico-hotel-marigold e depois percorrer uma longa-estrada-para-casa”. tudo bem condimentado com Bollywood de (in)discutível qualidade. um sucesso de bilheteira garantido, como o filme a que assisti no clássico cinema Raj Mandir em Jaipur. (havemos de voltar aqui para o revival que essa aventura por si só merece).
sim, a Índia é um mundo-de-aventuras. e sim, também tem um pouco de tudo isto mas é muito mais, tanto mais que se não estivermos bem ligados a sua verdadeira essência nos pode passar completamente ao lado. *spoiler alert* desfaçam-se já alguns mitos: nem todos apanham uma caganeira mesmo se lavarem os dentes com água da torneira. não chegamos à Índia e sentimos a espiritualidade invadir-nos como se do exorcista se tratasse. não é só lixo nem eles são uns selvagens que queimam corpos e deitam-nos ao rio e tomam banho e lavam roupa tudo-ali-assim.
levamos um murro, mas não é no estômago: é no nosso ego. nas nossas vidas tão neuróticas-e-complicadas. nas expectativas irreais a que nos agarramos. no engano do que é viver realmente em sintonia consigo mesmo. e quando recuperas da (des)ilusão do primeiro impacto és invadido pela consciência de que tens de te despir – totalmente. entregar – totalmente. e aceitar que tens tanto a aprender com estas culturas.
é certo que a minha aventura se circunscreveu a uma parte deste que é um dos maiores e mais povoados países do mundo e eu não serei arrogante ao pensar que poderei representá-lo à altura da diversidade de sensações e lições e encontros que nos oferece. mas se descrevesse a (minha) Índia numa palavra seria ‘sensorial’. não houve um só momento em que não estivesse a sentir desde os cheiros e as cores que se misturam nas ruas, o sabor forte do picante-que-pica-mesmo, o olhar longo e presente das pessoas.
com tamanha dimensão era fundamental que houvesse uma forma fácil de tanta gente se deslocar: andar de comboio na Índia é um must-have para quem quer sentir realmente o que é viajar no tempo. porque não se trata apenas de um transporte e sim de um retiro-espiritual acessível a todos os que entendem o que significa aqui-e-agora, naquele tempo infinito de corredores em pé-descalço, nos thali em família, saindo à rua para renovar ar em cada estação, bebendo chai antes de deitar o corpo cansado num beliche duro de três andares.
para os mais românticos como eu o comboio foi uma oportunidade para trocar muitos sorrisos e construir estórias sobre o que significariam conversas inteiras no banco da frente, o que ouviriam nos headphones, para onde se deslocavam e o que os homens traziam nas suas lancheiras: teriam sido preparadas por uma mulher atenciosa cujo marido se havia esquecido das lides do amor?




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