Anita lunar

lia há pouco um artigo sobre amizades, de que forma são tão importantes na nossa vida e, ao mesmo tempo, tão difíceis (de criar e manter). já em miúda achava que tinha muitos amigos; lembra-me com precisão acutilante a minha Mãe dizer-me: “filha, X não é teu amigo, é conhecido”. e eu achava que a minha Mãe pertencia a um mundo de adultos-desiludidos e demasiado ocupados com as ‘coisas importantes’ – o que eu sentia era tão grande, tão intenso!

sempre me entreguei a tudo o que realmente me importa com a convicção de um kamikaze, achando que essa era a única forma de me relacionar com os outros. mas não sou feita só de nobrezas e uma grande parte de mim queria apenas garantir que não havia como não gostar de uma miúda com uma enorme capacidade de entrega às pessoas, às relações, aos sonhos e projectos, tudo o que constitui o meu ecossistema de vida.

demorei muito para entender o que a minha Mãe queria dizer. que não há forma mais ilusória e fugaz de me sentir querida do que tentar agradar a todos, tantas vezes desagradando-me. que o universo dos afectos não oferece escapatória possível a ser-eu-mesma ainda que ser-eu-mesma desagrade a muita gente.

não esqueço uma pergunta numa das muitas tardes de sofá a dois: “porque é que quer agradar a toda a gente se também não gosta de toda a gente?” helás. devíamos sentir-nos libertados com estas evidências mas é que mesmo limpando tudo o que só acumula pó parte de mim será sempre um piloto japonês em guerra e não sobreviverei incólume à força destes ataques.

tal como a lua em eclipse sou alguém total ou parcialmente ocultada pela sombra e aí permaneço algum tempo até voltar a alegria bem-humorada com que gosto que todos me vejam e eu também – ou pensam que é só uma questão de escolha? a amizade é somente uma dessas coisas que só é acessível a quem tiver a capacidade de observar verdadeiramente.

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