Anita já te tenho dito

espelho meu: existe alguém mais perfeito do que eu? nem mesmo a rainha má acreditava que era e pagou caro pela ilusão. já todos sabemos que os espelhos iludem, olha os da ZARA e da H&M que nos mostram extrapoladas de imperfeição. mas todas continuamos a ir lá e a comprar e a viver com isso.

ao contrário da rainha que decidiu perseguir a branca-de-neve pela ilusão que ela própria havia criado, nunca ouvi ninguém dentro do vestiário dizer alto ‘és um bardamerdas de espelho, não te admito que ofendas o meu corpo e abatas a minha moral, quem és tu para me julgar?! vou partir-te todo e mais à tua mediocridade. eu sou linda, eu sou boa, eu sou perfeita!”

mas há quem o faça. alto e fora das cortinas que existem para manter privadas as nossas reflexões e explosões mais íntimas e que até nos podem envergonhar. ainda há perseguidores dos responsáveis pelas suas próprias ilusões ofuscadas de comiseração.

não há forma de contornar a responsabilidade de nos iludirmos. e isto não faz da ilusão a má-da-fita mas apenas aquilo que é, uma escolha responsável. e da mesma forma que não somos perfeitos é esta inerência de podermos ser vistos de forma tão diferente por várias pessoas que faz de nós únicos e isso é o mais perto que estaremos da perfeição.

agora; lá por sermos únicos não podemos achar que somos donos da verdade. da dignidade moral. da capacidade interpretativa universal. da sentença irrevogável. da condenação sem prova em contrário. da fogueira pública. dos bastidores da vida dos outros.

nada que vá além da opinião individual com que a liberdade nos empodera legitima o direito de nos tornamos desrespeitosos e desprovidos de tudo o que é conhecido como ‘senso-comum’; fosse ele realmente comum e estaríamos todos nos maus lençóis de quem decide fazer-nos a cama e nos força a deitar nela.

se eu escolho que não me quero iludir então eu não me ponho a pensar nos meus ídolos enquanto matéria absolutamente pura dos pés à cabeça, destituídos de necessidades básicas, defeitos estruturantes e falhas para além das mundanas.

se eu escolho não me iludir eu não vou transformar palavras ditas num dado contexto e isolá-las e decidir que são as mais horríveis palavras de sempre ditas pelo ser humano mais desprezível do mundo, que aliás nem sequer devia existir no mesmo mundo que eu.

nestas alturas penso sempre aquele filme “Um dia de Raiva” porque me lembra que pode saltar-me a tampa toda a qualquer momento, até quando tudo corre bem e de feição e o mundo parece ser perfeitamente ajustado à minha ilusão. é um dos meus botões snooze e que uso para adiar conscientemente o fel da ilusão com que quero entorpecer tudo e todos.

sabem, é que eu não sou perfeita.

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