durante meses fui a-vizinha-do-lado. daquelas à séria, que ficam com a chave suplente, que vão dar comida aos gatos, que regam as plantas (que não tinha por causa dos gatos). que dão a chave suplente e deixam o-vizinho-do-lado vir dar comida à tartaruga-gémea e regar as plantas (que agora já tenho e, embora as folhas sobrevivam, o mesmo não posso dizer da terra espalhada pelo tapete da sala se me esqueço de as deixar a salvo na varanda).
foram seis meses de convivência intensa, já que havia que compensar os seis anos que morámos porta-com-porta e nunca nos cruzámos. a primeira vez que interagimos foi através de um post-it-cheio-de-lata que deixei colado na porta dele; alguém cujo tapete de entrada convida a ir para o lado negro da força merece a minha atenção e depois de tornar a foto pública e várias mães me pedirem que soubesse onde se arranjava tal relíquia, não podia deixar mal estas crianças. a resposta veio rápida e pela mesma via e assim nos mantivémos mais algum tempo.
conhecemo-nos nas piores circustâncias: chegava a casa de um jantar e o gato-preto-da-Puka não veio à porta receber-me como de costume. chamei por ele e vi de relance uma mancha no escuro da sala comodamente à minha espera (até hoje acredito que esperou por mim). enquanto confirmava que chegara bem o gato-preto-da-Puka continuava no mesmo sítio e eu a falar com ele com aquela voz que não ouso repetir em público até que lhe peguei, fiz uma festa e voltei a pousá-lo no chão, era só preguiça do gato-preto-da-Puka. mas ele tombou e passados uns minutos depois de levá-lo para a luz o seu corpo pequenito parou de mexer.
faz quase um ano que o-vizinho-do-lado e eu chorámos pelo gato-preto-Teodoro. naquele dia nem as pantufas ridículas que ele tinha calçadas quando me abriu a porta (lavada em lágrimas e terrivelmente assustada) aliviaram o ambiente. depois começámos por trocar serviços de pet-sitting e só passados um ou dois meses vieram as tertúlias tardias de Outubro ainda na varanda, as garrafas de vinho e chocolate preto e Ben&Jerry’s com bocados de Reese’s, conversas intermináveis sobre as verdades universais da vida e as estórias que preenchem os nossos dias.
fomos uma éspecie de MEC e Nogueira sem tanta piada mas com a mesma cumplicidade. a vida é um fluxo de encontros com as pessoas certas – mesmo quando são as erradas. é como estar na plataforma do metro à espera de entrar na carruagem e ouvir a mensagem “pedimos desculpa pelo incómodo. por motivos alheios à nossa vontade a linha X não está a funcionar. agradecemos a vossa compreensão.” às vezes não compreendemos logo mas nesse dia o nosso destino pode mudar. como o-vizinho-do-lado que deixou de ser mas que terá sempre o seu assento cativo.




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