Anita filosofal


quem me conhece… (PAUSA). ia tão lançada que quase me passava ao lado esta idiossincrasia que, pressinto, seria um mau começo para qualquer empreitada porque ninguém se conhece realmente enquanto ser inacabado e mutante que é, menos ainda quem julga que nos conhece e há tanta gente com essa presunção. ui, lá vem ela com os clichés….. (VOLTA).

gosto muito da sabedoria popular ainda que seja cliché e sei que não está na moda ser cliché. à noite todos os gatos são pardos e vozes de burro não chegam ao céu e tudo o que parece nem sempre é e coração que sente coração doente. um destes dias assisti à apresentação de um curso de escrita e o disclaimer foi feito logo no início: “os vossos amigos e família dizem-vos que escrevem muito bem e que podiam escrever um livro? tenho más notícias, vocês não sabem escrever.”

senti-me finalmente compreendida. eu sei que sou uma palavrista-de-bolso (acabei de inventar a expressão e por isso diria que também sou uma idiota-de-primeira). eu sou só alguém que se desconta nas palavras, às vezes elas até me fazem mais eco quando as ponho para fora ou as visualizo a baton carmim, gritantes no espelho da casa de banho logo de manhã para abrir-a-pestana. não tenho nenhuma arte, sou apenas (mais) uma filósofa da (minha) vida. a Frida Khalo, que admiro muito, dizia que se pintava porque era o tema que conhecia melhor e talvez me reveja nestas palavras.

(PAUSA) reparem, ela não diz que ‘conhece bem’ e sim ‘melhor’. é interessante a perspectiva de que somos várias pessoas e vivemos várias vidas nesta grande produção e que, por isso, estamos sempre a ter muitas oportunidades para fazer diferente, experimentar diferente, amar diferente, não mais nem melhor, apenas diferente, é como se fossemos gatos-com-sete-vidas. há quem ache que não tem mais nada para aprender, que o seu formato deveria servir em todos e ouvem-se normalmente frases redondas “não percebo como é que fulano está assim” ou “conheço-te tão bem, já sabia…” ou “estava-se mesmo a ver, devias…”, seguras de que o destino das suas palavras é um lugar bonito onde todos estaríamos protegidos do mundo. porque não nos levam para lá então, a nós outros, os outcasts que parecem ‘nunca estar bem’? aos olhos de tantos (por vezes até aos nossos) parámos no tempo mas já Heráclito dizia que nenhum homem se banha duas vezes no mesmo rio porque nem ele nem o rio são já os mesmos. seremos realmente capazes de aceitar que o tempo faz mais do que apenas passar?… (VOLTA).

eu gosto de contar estórias de viagens a destinos que só eu conheço e com passageiros que só eu idealizo. foi-me pedido que contasse a minha estória num minuto e em vídeo e para isso já não tenho jeito nenhum. impossível (dispara o gatilho do medo): eu em vídeo, eu sobre mim? nem pensar. mas nunca é boa decisão fugir das coisas só porque nos assustam e também não havia como contornar o facto de ser um projecto para a faculdade. e já que era assim então toma lá: de que outra forma falar sobre mim que não pôr os meus passageiros a fazê-lo?

embrulhei a ideia num belo pacote de pessoas que entram ou já entraram nas minhas estórias e conheceram as várias Anas que consegui apresentar num minuto, dando-lhe o dom de apenas uma só palavra. e atrevo-me a dizer que todos somos bons contadores de estórias quando usamos as palavras com intenção. ao contrário do tempo, a intenção das palavras torna-as eternas, absolutas, aconteça o que acontecer e venha quem vier porque não são as palavras que importam e sim o significado que em si encerram.

uma das minhas estórias favoritas explica o que é isto da intenção melhor que ninguém (ainda há dias reli o Principezinho): é simplesmente fechar os olhos e ver um elefante dentro de uma jibóia ou uma ovelha numa caixa e foi exactamente isso que esta maravilhosa obra prima da realização revelou, que mais do que falar de quem sou, o que conta é a forma como me revejo em cada uma destas pessoas e no que elas me acrescentam e o que delas constitui esta Ana de palavras imperfeitas. ser imperfeita é absolutamente fundamental e de uma beleza tão única… que pena passarmos uma vida inteira a lutar contra isso.

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