
não gosto de despedidas. nem de partidas nem de separações. é como se me cortassem uma perna ou uma mão, fico temporariamente disfuncional. sejam lá de que tipo for. um dia fui viver para fora e descobri que os aeroportos só são bons à chegada, quando os braços estão abertos e nos reencontramos num fui-ali-e-já-voltei. descemos aquela rampa com o sorriso a esticar a pele, varrendo a pente-fino a multidão esperadora para encontrar quem já nos aconchega no único lugar que será sempre melhor do que qualquer destino exótico. tudo bem que a nossa casa é onde mora o nosso coração blá-blá-blá mas os corações de quem gostamos fazem muita falta e quando são os outros a partir também não-é-pêra-doce; os adeuses afrouxam e atabalhoa-se a coisa para disfarçar os olhos de maresia com recomendações de última hora que iludem numa proximidade que não vai existir. na verdade, quando é para partir sem data de regresso não há muita distinção entre quem vai e quem fica, queremos sair dali à mesma velocidade com que passou o tempo que estivemos juntos, a voar e sem fazer check-out. é-do-caraças porque vivemos no mundo global que é suposto encurtar distâncias mas não há skype que substitua o cheiro e o toque ou a ausência literal daquele ombro num desses dias em que mais nada consola. a minha Mãe mandou-me um cd do Jorge Palma a dizer que me ‘encostasse a ela’ e eu assim fiz, tantas noites virada para as torres iluminadas da janela do meu quarto no 41º andar. também o final do verão é assim uma espécie de separação amorosa: fomos os mais queridos durante meses mas sabíamos que não ia durar. que esse sentimento se dissiparia rapidamente no refúgio de um próximo, refrescante de possibilidades. sabemos isso tudo mas custa tanto arrumar esse tempo em que estivemos a criar memórias, a viver momentos, a partilhar e a construir qualquer coisa que nem sempre foi visível no pico-de-calor. num instante seguinte, zás! somos estranhos. já não cozinhas em minha casa descalço nem é meu o sorriso que ilumina a tua memória e fico a perguntar-me como limpo o muro vandalizado pelas palavras que o teu sentimento nunca esteve pronto para comportar.como as flores, murchámos e encurtámos os dias em que nos pertencemos, esvaziando-se tudo nesta despedida que é já passado tão imediato quanto o futuro que nunca construímos. ninguém nos prepara para este frenesim de partidas-e-chegadas especialmente quando se nasce com a sensibilidade na 3ª-camada-da-pele e por muito desapego que se treine e olhem que eu tenho ido aos treinos. é que além disso tudo me escavar-até-as-entranhas, o que era realmente desnecessário era deixares-me também com os pés-frios.




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