eu queria fazer contigo o que a primavera faz às cerejeiras mas o meu nariz e todos os canais adjacentes tentam boicotar este lindo poema que é o amor-primaveril. ser alérgica ao pólen ou ao sopro do dente-de-leão é tudo menos romântico mas nada que um espirro-rápido-lacrimogéneo-libertador de quem chega da estação dos dias de inverno-do-desamor não resolva.
há neste parentesco a afirmação de que tudo vai ser mais fácil a partir de agora. começo a cortar caminho pelo jardim da Gulbenkian e a parar para ler sentada na relva ou ver os patos nadar. a ir à sessão das 19 ver o filme que me falta, a vestir menos camadas de roupa e a aspirar (man)ter o cabelo alinhado. a tomar café sentada nos degraus quentes-do-sol da escada de emergência exterior depois do almoço, com uma bela vista para a selva-da-cidade.
mesmo assim há coisas que não mudam nem com os ânimos: a irritação matinal humana é uma delas. começa tudo no breve percurso de carro até ao metro quando entro na rotunda – não me vou alongar aqui já que todos sabemos sofrer d’uma rotunda dislexia no que toca aos círculos que somos obrigados a contornar todos os dias.
depois quando saio para a faixa mais à esquerda, a única que me permite ter acesso ao caminho que preciso seguir. ponho o pisca e finjo-me distraída com a música do rádio, já a prever a vista-grossa que me vão fazer os carros do lado, olha-’pra-esta-não-me-apetece-ela-que-espere, e os pedais aceleradores-nervosinhos dos carros atrás, vá-lá-sua-aselha-quanto-mais-tempo-vais-permitir-que-fiquemos-aqui-à-espera, todos absolutamente tomados por uma indignação alheia à evidência de que nem sempre temos escolha senão fazer o que tem de ser feito.
quando finalmente chego ao metro sinto-me como se estivesse à porta do Jamaica no Cais do Sodré: uma multidão à entrada e outra igual à saída – enquanto que no corredor das carruagens se podia jogar ao berlinde ou andar de patins-em-linha. o que será que as pessoas acham que acontece se não conseguirem sair na estação que querem, uma sequela mais manhosa ainda do filme Creep, a plataforma do medo?
entretanto, a minha mão fica entalada entre as costas de alguém e o varão central, provavelmente convencido que está encostado ao muro do pavilhão-17 a fumar um cigarro e a fazer tempo antes do último toque. e os collants a escorregarem-me pelas pernas.
volto à superfície e respiro. fundo e várias vezes. e ainda só são 930 da manhã e nem sequer tomei café. mas chegou a primavera que não me deixa pensar noutra coisa senão mostrar-te as cerejeiras em flor do quintal da casa da serra, para onde fugiremos juntos.




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