Anita com pingo no nariz e lágrima no canto do olho

após uma semana metida em casa saio novamente para o mundo com esperança renovada nos insólitos-Yorn da vida porque quando estamos doentes e reclusos durante dias até parece que o mundo pula-e-avança sem nós, quando na verdade o tempo só faz uma pausa nas rotinas habituais da contemporaneidade. quase que nos enganamos porque achamos que o tempo está a nosso favor mas é só até percebermos que, à semelhança de tantas outras fatalidades que nos inflige, o timing para desfrutá-lo é uma janela empenada, sem óleo nas juntas e com uma paisagem nublada pelo ar que não respiramos.

estar doente é uma das piores coisas que me pode acontecer, fico irascível, impaciente, sou um gajo-piegas cujo humor oscila entre não-querer-ver-ninguém e a carência-incompreendida. nestes dias só me apetece dormir muito porque é assim que todas as maleitas passam sempre mais depressa, até as da alma, e quando estou doente não há muito mais motivação que não a de desaparecer debaixo do edredon da sobrevivência.

mas desta vez não houve hipótese de não trabalhar, obrigando-me a fintar essa grandessíssima-flha-d’uma constipação que insistia em metamorfosear-se numa bela gripe-viral a escalar-me narinas acima e que mais uns dias já não aguentavam senão bocados de papel-higiénico-fofinho. já para não falar nos olhos inchados cujo único consolo é aproveitar para limpar tudo sem nos debatermos com grandes justificações, género máscara esfoliante do coração ‘olha, é a rinite!’, algum dramatismo nestas coisas também é importante.

e claro, ficar em casa de robe-piroso-e-confortável sem me preocupar ter morrido-para-o-mundo, como aquelas pessoas que ao fim de semana vão ao shopping de fato-de-treino (ai, espera, agora isso está na moda outra vez). beber chá às carradas e estar sempre com o colo quentinho do lombo de pêlo-pesado da minha enfermeira patuda também é um daqueles privilégios que só quem tem um animal pode valorizar.

podia ser pior; a última vez que estive doente acabava de chegar para sete dias de férias à ilha verde e frondosa que lembra a tropicalidade dos dias de verão mas que acabou por ser tudo menos um paraíso azul. ainda assim esforcei-me tanto e uma vez mais para fazer as caminhadas a que me propus condensadas num último fôlego que as tornasse memoráveis, mesmo sabendo que não poderia lutar contra a doença inevitável que é o esquecimento.

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