Anita apanhada no triângulo amoroso

o Pico da viagem não representou a viagem toda. havia muito por descobrir nesta visita aos Açores beyond-my-wildest-dreams. primeiro o Faial e depois o Pico para finalmente me esquecer em São Jorge, completando assim o grupo central deste arquipélago tão primitivo e encantador. não sabia o que me esperava e decidi não esperar nada ou tudo, que consiste exactamente na mesma medida de investimento emocional para mais possibilidades ainda de sermos extraordinariamente surpreendidos. sair do avião em pista é logo um bom prenúncio de que a casa é acolhedora e despretenciosa. poder ir de umas ilhas para as outras em barcos que parecem não importar-se com origem nem destino, também – asseguram que não ficamos esquecidos no meio de um vasto oceano. ah, sim, nos Açores o mar é de um azul profundo que garante que não estamos encurralados ou que há perda alguma, ao contrário, ganha-se uma dimensão ainda maior, imprescindível em dias atlânticos. de uma para a outra fui tendo cada vez mais dificuldade em decidir da que gostava mais, uma leva-nos às alturas e outra mantém-nos rente ao chão, sendo que o Faial é de todas a mais bem comportada. quando viajamos há sempre uma expectativa latente e de nada serve ouvir as vozes-da-razão que nos tentam impingir a conversa do ‘ah, vê lá não tenhas muitas expectativas para não te desiludires’ e ah-como-eu-sempre-detestei-esta-frase com que nos habituámos a alimentar a ilusão de controle que imprimimos em tudo na vida. da mesma forma que a montanha está para o caminho também viajar pode ser a única maneira de entendermos de vez que o nosso caminho é incontornável. pois é, gostávamos que nos saísse o Euromilhões e de não trabalhar nem mais um dia, ou de salvar o mundo e ganhar um Nobel, ou apenas de pedir o menu-família-feliz e isso tudo vir-nos entregue numa bandeja só-porque-merecemos e faz-parte-dos-requisitos-básicos tal como manda o figurino. e é neste labirinto entre escolher e ser escolhido que geralmente nos perdemos e eu estava ali para me resgatar uma vez mais do que sabia já tão certo. decidi enfim que não ia escolher nenhuma ilha em particular e todas no geral e acreditar que há um outro tempo que será o nosso. porque todas me encantaram mas nenhuma me prendeu para sempre e está tudo bem. porque as marés vêm e os marinheiros seguem e continuamos a brindar à(s) vida(s) que nos espera(m) com um gin no Peter’s ou a sentir pele-de-galinha na vastidão dos Capelinhos onde, afinal, foi mesmo aí que o mundo acabou. pelo menos, naquele dia e aquele mundo.

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