Anita a preto-e-branco

tenho visões muito concretas e românticas de alguns processos fundamentais da vida e uma delas é sobre a morte: imagino-a sempre como um suspiro. rápida e entre parênteses rectos. fim. vão-se embora, já não há nada para ver aqui.

quando me perguntam do que tenho medo nunca penso nela, talvez por isto mesmo, o suspiro é um segundo tão arejado que traz para fora tudo, deixando limpas as profundezas. como se a morte fosse de uma brancura imaculada que em vida não alcançamos, nem com o melhor detergente.

tenho temores que se agigantam tanto mais e que personifico todos os dias em palavras, imagens, expressões e situações que me assoberbam. como a degradação, a solidão, o abandono. com a morte é tudo mais pão-pão-queijo-queijo, um suspiro entre parênteses rectos que proclama ser deixado em paz.

a morte não é nossa, é dos que morrem. nós somos só espectadores curiosos e enfurecidos. se a morte se anunciasse no facebook teria muitos comentários de haters e maldicentes, era o que faltava, quem te deu esse direito de me deixares ficar mal? como se ela fosse de todos menos de quem lhe dá a mão.

o luto é uma materialização muito complexa. ao contrário da morte que é de quem morre o luto é de quem fica. cabe-nos materializar a morte. dar-lhe continuidade, como se isso fosse possível, como se morrer não fosse já a coisa mais permanente da vida, a única coisa permanente e definitiva.

muita gente parece saber logo sobre o que se sente perante a morte, a morte tem um protocolo. é preciso chorar muito. é preciso dar visibilidade à dor, é preciso agradecer todos os telefonemas. é preciso responder a todos os “como estás?” mesmo quando não se faz a mais pequena ideia das respostas, não fomos nós que morremos.

há quem não saiba lidar com a morte alheia e reverte o sentido todo do luto: estás a incomodar-me com a tua morte, que chatice. esconde-te. o melhor é nem perguntar nada, ainda desata aí a invadir-me de tristeza, que chatice. outros dizem “se precisares de alguma coisa, diz.” mas dizer o quê, se a morte não se anunciou?

quem se enluta fica impossibilitado de discernir, temporariamente insano. como se tivesse o piiiiiiiiiiiiiii nos ouvidos quando sai da discoteca. à volta tudo parece igual e o tempo certo e o trânsito e o escritório e o almoço mas por dentro há tanta coisa diferente. como se alguma coisa na morte nos dissesse respeito que não morrermos também um bocadinho.

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