A importância de ser… Anita.

estive dois meses fora da(s) rede(s). levei o meu mobile-detox mais além, como um Buzz-Lightyear que tem de passar pela aventura de se perder para aceitar finalmente que é só um brinquedo e não um verdadeiro astronauta. desactivei as minhas contas de Facebook e Instagram da mesma forma que se vivem os mais belos momentos na vida (ainda que nos possam custar caro e geralmente custam): não pensei, agi. um dia, em casa, no intervalo de uma série qualquer, pegas no telefone para ‘ver o que se passa’ e realizas que não queres saber tudo o que se passa. já se passa tanta coisa na tua vida que não consegues comportar mais vida nenhuma.
redundâncias à parte, um sábio qualquer disse que a ignorância é uma bênção mas eu acho-a bem atrevida e talvez quisesse também provar a mim mesma que conseguia libertar-me da fantasia de que todas as crónicas e posts e comentários e fotografias no meu álbum são o que me mantém viva e relevante. de que não é por estar fora que sou posta de fora quando me querem pôr de fora. que o sucesso da comunicação é somente a decisão de tornar uma interpretação livre e independente comum às partes, um acto generoso de nos colocarmos no lugar do outro especialmente quando não nos pede e mais precisa.

este foi um momento ‘dedo-do-mailchimp’, sabem, aquele macaquinho que deixa escorrer gotas de suor de nervos antes de carregar no botão vermelho que vai disseminar a newsletter da empresa para os 6300 contactos da vossa base de dados? até as redes sociais conhecem as armadilhas da chantagem emocional:

ARE YOU SURE YOU WANT TO LEAVE? claro que não tenho a certeza, sou ao contrário do Cavaco e cada vez tenho menos certezas e mais dúvidas, só sei que agora não consigo, que está a ser difícil, do que tenho certeza é que algum dos teus mais de mil milhões de utilizadores vão fazer-te esquecer-me num ápice.

JUST TELL US WHY. assim também já é demais. és intenso e queres logo tudo de uma vez e estás a sufocar-me, preciso de tomar o meu tempo, às vezes não há razões, só há sentir, um sentir indefinido mas suficiente para inquietar, que não permite continuar mesmo se não temos a certeza de querer sair mas não podemos negar a dúvida – tu é que perguntaste. além de que sei que só me estás a usar para reunir dados e dados que me vão mostrar um dia que não tomei a decisão certa que andaste a plantar no meu subconsciente meses a fio.

YOU CAN COME BACK ANYTIME. mentes; não há voltas, só (re)começos. mas eu assumo esse risco.

back-to-basics. não foi uma sensação boa nos primeiros dias, estaria a mentir se dissesse que sim, apesar de ser um unicórnio, também possuo todas as fragilidades e pensamentos ‘egóicos’ de um mortal. no princípio fica o silêncio que, para quem tem a sorte de saber apreciá-lo, sabe bem as vezes todas que desatamos a dizer coisas que nem queremos só para evitar o desconforto de uma viagem no cubículo exíguo do elevador que tomamos de manhã. e depois, o que fazer com o telefone? bem, ainda restam o messenger (sim, podem mantê-lo independentemente de saírem do facebook), o whatsapp, os sms e… telefonar! lembrete: o-telefone-serve-para-telefonar.

escusado é mas nunca demais dizer que aprendi muita coisa com esta ausência e a primeira foi que o anonimato está para a nossa vida como a água para o planeta, é um recurso natural em perigo de extinção. sabes tudo na mesma, só se não quiseres mesmo. nos primeiros tempos ninguém deu pela minha falta, nem os meus amigos – que felizmente sabem usar o telefone. mas também confirmas que há quem atribua às redes sociais a condição de idoneidade que precisa para apaziguar a sua consciência, isto quando não é porque mais facilmente concluem que foram bloqueados do que lhes ocorre que alguém algum dia possa sair sem ter de estar de mal com outro ou com o mundo. lembrete: as redes sociais são sobre nós, não são sobre os outros, escolham outro bode-expiatório para o vosso apocalipse.

depois há quem te transforme numa heroína dos tempos modernos, eu que já sou tão século-passado, e todas as semanas na faculdade me perguntam se ainda estou fora como quem nem sequer cogita a ‘cena social’ antes de existir a ‘cena das redes’, seguindo-se o desabafo empático mas um tanto forçado ‘era o que eu devia fazer’, ao mesmo tempo que o dedo multifacetado do scroll desliza pelo ecrã e comenta o último vídeo da bunda-na-fofinha e me contam tudo porque afinal eu estou fora mas sou muito à frente. só mais recentemente vieram os emails e mensagens escritas e manifestações de carinho sem atestado público que me comovem e devolvem e rematam de forma realista experiências como esta:
eu aceito que não sou um unicórnio, sou uma humana nem mais nem menos especial. eu aceito que sou passageira em tantas vidas como outros são passageiros na minha. eu aceito que sou ‘esquecível’ mas que também esqueço. e o melhor de tudo é saber que haverá um Woody que me vem dar a mão e lembrar que quem está comigo está-e-não-abre. lembrete: tu és único, não importa em que posição do algoritmo estás.

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