Anita 9/eleven

“se alguém te oferece uma oportunidade e tu não sabes se consegues, aceita primeiro e aprende depois.”
foi exactamente assim que pensei antes de responder ao headhunter que me telefonou a perguntar se estava interessada em ser directora de marketing numa das maiores tecnológicas que existem e sem saber que citava uma figura já incontornável do mundo dos negócios.

há 17 anos atrás eu era outra pessoa. é desleal para essa pessoa dizer-lhe que teria feito muita coisa diferente porque ainda não tinha acesso a tanta informação sobre si mesma. mas se não fosse e pudesse realmente fazê-lo a primeira coisa que lhe dizia era outra frase conhecida e muito mais à sua semelhança: “não caias nessa; é uma armadilha!” não será mais sensato pensar primeiro se é essa A nossa oportunidade?

aceitei absolutamente convencida que não havia como errar, afinal tinha do meu lado a experiência inquestionável de quem afirmava categoricamente que aprenderia tudo o que precisava no terreno. só isso podia justificar proporem a uma miúda imatura criar um departamento e geri-lo. o pior que podia acontecer era não conseguir e começar tudo do novo o que naquele tempo não me pareceu tão assustador como agora me parecem as constantes renovações a que a vida obriga.

e assim começou esta minha viagem do caraças que me levou mundo fora e para fora do meu mundo num vórtice de experiências que ainda hoje, muitas delas, me parecem não ter sido reais. como boa empresa americana havia sempre um certo exagero em tudo; começávamos com o new-hire training, uma semana intensa de apresentações mútuas no quartel-general que ficava na cidade irmã de Lisboa, com as colinas e eléctricos e ponte para a outra margem.

depois os eventos anuais noutras cidades igualmente cénicas: visitar o parque Disney em Orlando aberto gratuitamente para todos os empregados e clientes. voar de helicóptero até ao Grand Canyon com jornalistas e dormir num quarto de hotel maior que o meu apartamento dentro de uma Veneza reconstituída em Las Vegas. ter semanas de formação num castelo recuperado com uma propriedade que não fazia má figura comparada com os jardins de Windsor em Inglaterra. voar para um dia de reunião em Madrid, Barcelona ou Paris.

a derradeira experiência foi mesmo ir viver para outro continente onde a língua se faz de sons e símbolos e os apartamentos são no 41º andar. houve muitos dias em que não consegui adormecer e ficava a olhar para as luzes da cidade a pensar como é que alguém que não sabia o que queria na vida tinha já tanto dela.

confirmou-se que foi uma grande oportunidade e que só aprendi fazendo. e fiz durante muitos anos. mas como todas as aprendizagens de vida também senti na pele o quão difícil é quando retiramos a todas estas experiências o bling-bling que têm vistas do lado de quem não as viveu e o preço pode ser tão alto quanto as Twin Towers que ainda consegui conhecer erguidas a arranhar o céu.

se pudesse falar à minha pessoa de há 17 anos atrás dir-lhe-ia que a ingenuidade é proporcional à coragem dos vinte anos e que ela foi corajosa e que me orgulho da sua coragem. que essa é a verdadeira oportunidade, a de partilhar com colegas de agora a estória de como um dia teve a mesma idade e os mesmos sonhos e que isso foi o que bastou para entrar numa torre em Lisboa, assinar um contrato, e sair de lá para um mundo que nunca mais seria o mesmo.

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